Esporte como política pública é investimento que retorna em saúde e cidadania
Muito além de manter quadras e campos, o esporte municipal impacta a educação, a segurança e o bem-estar de toda a comunidade
Existe uma cena que se repete em todas as cidades brasileiras no fim da tarde. Crianças correndo atrás de uma bola, adultos caminhando na pista, grupos se reunindo para o treino. Por trás dessa cena aparentemente simples está uma das políticas públicas mais poderosas que um município pode oferecer, embora nem sempre ela receba o reconhecimento que merece.
O debate nacional ajuda a entender o tamanho da questão. O Brasil enfrenta índices crescentes de sedentarismo, e as doenças ligadas à falta de atividade física pressionam o sistema de saúde em todos os níveis. Ao mesmo tempo, a discussão sobre saúde mental ganhou espaço como nunca, e a prática esportiva aparece de forma consistente entre os fatores de proteção apontados pelos especialistas. Quando uma prefeitura investe em esporte, ela está investindo em prevenção, e prevenção custa sempre menos do que tratamento.
Para a criança e o adolescente, o efeito vai além do corpo. A escolinha esportiva ensina disciplina, convivência e respeito às regras. Ensina a perder e a tentar de novo. Muitos educadores costumam dizer que o campo e a quadra são extensões da sala de aula, e há verdade nisso. O jovem que tem horário de treino tem rotina, tem vínculo com um professor e tem um grupo ao qual pertence. Em muitos casos, é essa estrutura que o mantém distante de caminhos perigosos.
A gestão pública tem papel decisivo nesse processo. Manter os espaços em boas condições é o ponto de partida, porque uma quadra abandonada comunica descaso e afasta quem gostaria de usá-la. Mas a estrutura física é só metade da equação. A outra metade está nas pessoas. Professores qualificados, projetos contínuos e oferta de modalidades variadas fazem a diferença entre um equipamento que existe e um equipamento que transforma.
A continuidade merece destaque especial. Projeto esportivo que começa e para no meio do caminho frustra famílias e desperdiça o trabalho já construído. As cidades que colhem bons resultados são aquelas que tratam o esporte como programa permanente, atravessando gestões, e que enxergam o professor de educação física como agente de política pública.
Há ainda o esporte como fator de encontro. Campeonatos municipais, corridas de rua e eventos esportivos movimentam a economia local, ocupam os espaços públicos e criam memórias coletivas. A cidade que torce junto se fortalece como comunidade, e esse sentimento de pertencimento tem valor que não aparece em planilha.
O acesso democrático completa o quadro. O esporte público precisa chegar a todos os bairros e a todas as idades, do idoso que encontra na hidroginástica sua qualidade de vida à pessoa com deficiência que descobre na modalidade adaptada um espaço de superação. Quando a oferta se concentra em apenas uma região ou em apenas um público, parte da cidade fica de fora do jogo.
No fim das contas, cada real aplicado no esporte retorna multiplicado em saúde, em convivência e em oportunidades. A bola que rola na quadra do bairro carrega muito mais do que parece. Carrega o futuro de quem joga e a qualidade de vida de toda uma cidade.
Fonte: Wilson Alexandre Oliva é graduado em Ciências Contábeis (FUNEPE) e possui MBA em Gestão de Pessoas com ênfase em Liderança