As apostas online e o dinheiro que está sumindo da mesa das famílias
O Brasil movimenta bilhões por mês em bets enquanto cresce o endividamento, e entender como esse mercado funciona é a melhor proteção
Em pouquíssimos anos, o Brasil assistiu à construção de um mercado bilionário que entrou pela tela do celular e se instalou dentro das casas. As apostas online, as famosas bets, deixaram de ser novidade para virar rotina, e os números que elas movimentam dão a dimensão do fenômeno. As plataformas já giram em torno de trinta bilhões de reais por mês no país, e o Ministério da Fazenda calcula que as famílias brasileiras gastem cerca de sessenta bilhões de reais por ano com apostas. Para efeito de comparação, é mais do que muitos estados inteiros investem em saúde e educação juntas.
Esse dinheiro não nasce em árvore. Ele sai de algum lugar, e estudo da Confederação Nacional do Comércio mostra exatamente de onde. Entre o início de 2023 e março deste ano, a inadimplência associada aos gastos com apostas retirou cerca de 143 bilhões de reais do comércio varejista, o equivalente às vendas de dois Natais inteiros somados. O mesmo levantamento estima que 268 mil famílias entraram em inadimplência severa, com contas atrasadas há mais de noventa dias, por causa das apostas. E pesquisa da Universidade Federal de São Paulo aponta que cerca de onze milhões de brasileiros apostam em níveis que colocam em risco a própria saúde financeira. Dados de comportamento revelam o retrato mais duro: parte dos apostadores declara ter deixado de comprar roupas, reduzido as compras de supermercado e até cortado gastos com saúde para continuar apostando.
Há um detalhe que muita gente desconhece e que precisa ser dito. Embora sejam chamadas de apostas esportivas, a maior parte do dinheiro não vai para palpites de futebol. Estimativas de economistas indicam que cerca de 80% dos pagamentos nas plataformas estão ligados aos cassinos online, aqueles joguinhos de roleta e de bichinhos coloridos que prometem prêmios instantâneos. E eles não são inocentes. São desenhados com técnicas sofisticadas de psicologia para prender a atenção, criar sensação de quase vitória e estimular a próxima jogada, sempre a próxima. A conta matemática é implacável, porque o sistema foi construído para que, no conjunto, os apostadores percam. As empresas retêm dezenas de bilhões de reais por ano depois de pagar os prêmios. Se fosse fácil ganhar, elas não existiriam.
O custo social vai além do bolso. Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima que os transtornos ligados às apostas, como depressão e ansiedade, já custam bilhões por ano ao sistema público de saúde. Por trás desse número frio há casamentos desfeitos, salários que evaporam no dia do pagamento, jovens endividados antes do primeiro emprego e aposentados comprometendo o benefício na esperança de recuperar o que perderam.
Diante disso, o poder público se movimenta. O mercado foi regulamentado, com regras de licenciamento, publicidade e proteção ao apostador, e agora o debate em Brasília se aprofundou, com propostas que vão do endurecimento das regras à proibição completa das plataformas. É uma discussão legítima, que envolve arrecadação, liberdade individual e saúde pública, e que merece ser acompanhada de perto. Mas há uma verdade que nenhuma lei resolve sozinha, e ela mora dentro de casa.
A melhor proteção continua sendo a informação e o olhar atento da família. Vale observar os sinais de alerta: a pessoa que esconde o celular, que pede empréstimos sem explicar o motivo, que fica irritada quando o assunto é dinheiro, que promete parar e não para, que aposta valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção. Isso tem nome, é transtorno do jogo, reconhecido pela medicina como doença, e tem tratamento gratuito pelo sistema público de saúde e apoio em grupos como os Jogadores Anônimos. Quem convive com alguém nessa situação não deve tratar com vergonha nem com briga, mas como se trata qualquer doença, com acolhimento e ajuda profissional.
Aposta não é investimento, é despesa com altíssima chance de perda. Dinheiro de mercado, de aluguel e de remédio não pode virar ficha de jogo. E sonho de vida não se realiza no palpite, se realiza no trabalho, no estudo e no planejamento, como sempre foi.
A sorte que a nossa gente precisa não está em plataforma nenhuma. Está nas escolhas de cada dia.
Fonte: Evandro Leite Fernandes é bacharel em Ciências Contábeis e Administração com MBA pela Fundação Getúlio Vargas e atualmente atua como gestor comercial