Pesquisa da UFSCar liga mitocôndrias do oócito à saúde metabólica dos filhos
Trabalho de Angelica Camargo dos Santos, orientado por Marcos Roberto Chiaratti, ficou em segundo lugar em prêmio da SBTE
O que uma mãe come pode deixar marcas no metabolismo dos filhos, e não apenas pelo DNA que ela transmite. Essa é a pista seguida por Angelica Camargo dos Santos, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Genética Evolutiva e Biologia Molecular da UFSCar, cujo trabalho recebeu o segundo lugar na categoria de Melhor Trabalho na Área Básica da XXXIX Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Tecnologia de Embriões, em Mogi das Cruzes.
A chave da investigação está em uma estrutura minúscula. As mitocôndrias produzem a energia das células e, no caso dos embriões, vêm quase todas do oócito, a célula reprodutiva feminina que origina o óvulo. Isso significa que essas estruturas chegam aos filhos exclusivamente pela mãe, o que as torna um bom caminho para investigar como condições maternas atravessam gerações.
O pano de fundo é bastante concreto. Obesidade e diabetes tipo 2 afetam parcela expressiva da população, e pesquisas já indicaram relação entre obesidade materna e alterações metabólicas nos filhos. O mecanismo dessa ligação, porém, segue mal compreendido.
No experimento, conduzido em camundongas no Laboratório de Genética e Biotecnologia da universidade, o gene da proteína Mitofusina 2 foi desligado dentro dos oócitos. A MFN2 é justamente a peça que permite às mitocôndrias se unirem e estabelecerem contato com outras estruturas celulares. Os animais foram divididos em quatro grupos, cruzando a presença ou ausência dessa alteração com dieta normal ou rica em gordura, e depois acasalados com machos sem modificação genética.
Todos os filhotes nasceram com a mesma constituição genética e comeram ração normal depois do desmame. Ainda assim, o fígado deles contou outra história. Nos animais cujas mães tinham o nocaute e dieta normal, 482 genes apareceram com atividade alterada. Quando havia nocaute somado à ração gordurosa, o número saltou para quase 900, sempre na comparação com o grupo controle.
Para a pesquisadora, essa soma de fatores é o aspecto mais instigante do estudo, porque mostra que mudanças no ambiente celular do oócito, e não na sequência do DNA, podem repercutir na geração seguinte.
O projeto começou em 2020, conta com apoio da Fapesp e orientação do professor Marcos Roberto Chiaratti, do Departamento de Genética e Evolução. A etapa atual acompanha as gerações F2 e F3, em busca de saber se essas alterações persistem. Sobre o prêmio, Angelica destaca o valor da ciência básica, que entende os mecanismos biológicos antes de qualquer aplicação prática aparecer no horizonte.
Fonte: Informações da UFSCar